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![]() ![]() Em outro trabalho, conduzido por Souza (1998), procurou-se avaliar a lixiviação de glifosato em colunas deformadas de solo, com alturas de 1, 5, 10, 15 e 30 cm e com diâmetro aproximado 10 cm, em dois tipos de solo (franco arenoso e argiloso). Após umedecimento das colunas à capacidade de campo, uma solução de glifosato equivalente a 1,44 kg/ha de equivalente ácido de glifosato foi aplicada sobre a superfície do solo, e posteriormente simulou-se uma chuva de 40 mm, por um período de 4 horas, imediatamente após a aplicação. Para avaliação da presença de glifosato no lixiviado, diferentes concentrações desse material (0,0; 6,25; 12,5; 25; 50 e 100%) foram colocadas em vasos com capacidade de 2 litros, nos quais foram transplantadas plântulas de tomateiro com 5 dias de idade. O autor não observou qualquer prejuízo ao desenvolvimento das plântulas, avaliado através do comprimento de raiz e produção de biomassa. Como conclusão, o autor cita que o glifosato aplicado nas colunas sofreu forte retenção na matriz coloidal do solo, responsável pela inativação do produto. Estudos mostram que a sorção do glifosato no solo ocorre em duas fases, sendo a primeira delas praticamente instantânea, contribuindo com a retenção de mais de 90% do total aplicado, e a segunda um pouco mais lenta. Todavia, a fase lenta foi quantificada por Prata et al. (2004) em aproximadamente 10 minutos, tanto no solo sob plantio direto como sob plantio convencional. Os mecanismos de adsorção do glifosato são bem conhecidos e correlacionados com a capacidade dos solos em adsorver íons fosfatos e também com as concentrações de determinados cátions como Zn+2, Mn+2, Cu+2, Fe+2, Fe+3, Al+3 e Ca+2. Prata et al. (2000) mostraram que a adsorção do glifosato foi extremamente elevada em solos com diferentes atributos mineralógicos e teores contrastantes de matéria orgânica, classificados como nitossolo vermelho eutroférrico (NVef), latossolo amarelo ácrico (Law) e gleissolo (G). Esse estudo mostrou ainda alta taxa de retenção do glifosato, mesmo após a eliminação da matéria orgânica num solo com baixa capacidade de adsorção de fosfato. Esse fato é mais uma evidência de que a molécula apresenta vários mecanismos de ligação aos solos tropicais, podendo tanto ligar-se à fração oxídica do solo como ser adsorvida eletrostaticamente aos minerais de argila e à matéria orgânica, ou mesmo pela formação de pontes de hidrogênio com a própria matéria orgânica do solo (Prata & Lavorenti, 2002). (Figura 5).
Figura 5. Esquema dos mecanismos (interação eletrostática, forças de Van der Waals, pontes de hidrogênio e ligação covalente dativa dupla) envolvidos na sorção do glifosato em solo (Prata & Lavorenti, 2002).
Além dos fatos mencionados, é importante lembrar que a superfície do solo apresenta variação brusca de umidade, ou seja, os primeiros milímetros do perfil do solo, que compõem a faixa de recebimento do glifosato após a aplicação, variam do “encharcado” ao “seco” num intervalo muito rápido de tempo, o que acelera a adsorção do glifosato. Portanto, em função da forte adsorção do glifosato na matriz coloidal do solo, bem como sua rápida degradação por microrganismos, é pouco provável que a molécula de glifosato quando aplicada sobre as plantas daninhas possa atingir, em doses elevadas, as raízes de culturas perenes ou anuais do mesmo ecossistema e causar dano a pomares de citros ou lavouras de café ou outras culturas para as quais o produto é recomendado. Outro aspecto relacionado ao comportamento do glifosato no solo refere-se à adoção de práticas conservacionistas como o plantio direto. O sistema de plantio direto das culturas é beneficiado pelo comportamento do glifosato no solo, pois é realizado após aplicação do produto para controle das plantas daninhas ou coberturas vegetais. A eficácia e a segurança do plantio direto (Mello, 2002; Embrapa, 2003) associadas ao uso do glifosato possibilitaram um aumento na adoção desse sistema no Brasil nos últimos 25 anos, já atingindo aproximadamente 20 milhões de hectares. O plantio direto é um sistema conservacionista por excelência, preservando e melhorando a qualidade de nossos solos, sendo considerado por muitas instituições como um grande passo para a sustentabilidade da agricultura. Além disso, esse sistema de plantio é hoje adotado em várias culturas perenes importantes, como a cana-de-açúcar e o eucalipto. Além disso, o glifosato é altamente eficiente no controle das plantas daninhas, proporcionando excelentes condições de desenvolvimento para que as culturas atinjam seu potencial máximo de produtividade, quando comparado a outros sistemas de manejo das plantas daninhas. Em resumo, o glifosato utilizado de acordo com as recomendações de bula e práticas agrícolas corretas é seguro às culturas em geral, sem risco de absorção do produto pelo sistema radicular e aparecimento de sintomas de fitotoxicidade. Quando se fala em meia-vida de um produto, é preciso ressaltar que muitos desses valores são referentes a estudos de laboratório. Quando passamos a considerar as condições de campo, certamente surgem fatores que contribuem de forma muito significativa para a redução desses valores. Por exemplo, quando realizamos uma aplicação, temos que considerar que apenas uma parte da dose aplicada atinge diretamente o solo, visto que grande parte do produto é interceptada e absorvida pelas plantas daninhas. O produto que vai para dentro das plantas daninhas será liberado ao solo de forma gradativa, dependendo da sua decomposição, e muitas vezes já na forma de seu metabólito AMPA. Esse processo poderá ser bastante lento, pois depende da relação C/N, que no caso de algumas plantas é bastante alta. Com relação à sua solubilidade em água, o glifosato é um herbicida altamente solúvel, apresentando valor de 11.600 ppm a 25ºC (Kollman & Segawa, 1995). Experimentos procurando avaliar a estabilidade da molécula indicaram que o glifosato mostrou-se estável em água com pH 3, 5, 6 e 9, a uma temperatura de 35oC. Mostrou-se também estável à fotodegradação em pH 5, 7 e 9, em solução tampão sob luz natural, e a meia-vida por hidrólise foi maior que 35 dias (Kollman & Segawa, 1995). Bronstad & Friestad (1985) também indicaram que o glifosato mostrou pequena propensão à decomposição por hidrólise. Estudos conduzidos em Manitoba, Canadá (Kirkwood, 1979), mostraram que a perda do glifosato na água ocorreu através da adsorção a sedimentos e degradação microbiana. Ghassemi et al. (1981) concluíram que a taxa de degradação em água é geralmente menor porque existem menos microrganismos na água que na maioria dos solos. Estudos conduzidos em um ecossistema florestal (Feng et al., 1990; Goldsborough et al., 1993) mostraram que o glifosato dissipou-se rapidamente na água de lagoas com muitos sedimentos suspensos, com a meia-vida variando entre 1,5 a 11,2 dias. Já em ambiente florestal, ensaio conduzido em Oregon, EUA, por Newton et al. (1984), analisou a presença do produto aplicado diretamente sobre áreas a serem amostradas. Os autores observaram que os níveis mais altos de resíduo encontrados foram os do dia da aplicação, em que os valores no solo foram de 0,07 ppm, e na água do riacho, de 0,27 ppm. No quarto dia do tratamento esse nível caiu abaixo do limite de detecção do método (0,025 ppm). Os dados de meia-vida do produto encontrados no ambiente foram de 9 dias nas folhagens das árvores, 12 dias em arbustos, 14 dias nas plantas daninhas e 10 dias nas folhas que se encontravam sobre o solo em processo de decomposição. Resumindo, as propriedades que determinam o comportamento do glifosato caracterizam o produto como sendo de reduzido impacto ambiental, tendo em vista a amplitude de uso dessa molécula. O produto é degradado por microrganismos tanto no solo como na água; no solo é fortemente retido na forma de resíduo-ligado; na água, é altamente solúvel, sendo a volatilidade e evaporação insignificantes.
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