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Roundup : Glifosato : Capítulo VI


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Capítulo VI

Comportamento do Glifosato no Solo e na Água

A principal rota de degradação do glifosato são os microrganismos de solo e água (por processos aeróbicos e anaeróbicos), que o decompõem em compostos naturais. Uma característica importante do glifosato é a sua capacidade de ser adsorvido pelas partículas de solo e permanecer inativo até sua completa degradação. O glifosato é rapidamente degradado por microrganismos do solo, sendo que sua meia-vida média (tempo médio necessário para que metade da quantidade aplicada do produto seja degradada) é de 32 dias. Esse resultado foi obtido em 47 estudos conduzidos em campos agrícolas e áreas de reflorestamento em diferentes localidades geográficas (Giesy et al, 2000).

As plantas são seletivas quanto ao processo de absorção e liberação de substâncias ao meio. Dentro desse contexto, a molécula de glifosato, por ser um derivado de glicina (um aminoácido essencial presente nas plantas), não é percebida pelas plantas como um potencial agressor e, portanto, normalmente é muito pouco exsudada pelas raízes, o que foi demonstrado por vários trabalhos, como por exemplo o desenvolvido por Coupland & Peabody (1981), que avaliaram a quantidade de glifosato exsudado pelas raízes após aplicação sobre plântulas de gramínea. Mantendo-as em laboratório com as raízes em água deionizada, esses autores observaram que apenas 0,36% da dose aplicada sobre as mesmas foi exsudado pelas raízes. No caso da solução do solo, essa pequena concentração liberada seria adsorvida pelos colóides e íons metálicos presentes na solução e decomposta por microrganismos, ou seja, a concentração na solução do solo seria praticamente nula.

Outro trabalho nessa linha foi conduzido por Rodrigues (1979), que verificou, em casa de vegetação, a possibilidade de ocorrência de exsudação do glifosato pelas raízes de trigo, utilizado como cobertura em diferentes populações (5 a 30 plantas por vaso), e a possível implicação no desenvolvimento das culturas de soja e milho em plantio direto, simulada em vasos. O autor observou pequena interferência no desenvolvimento das plantas de milho e soja somente quando se empregou a dose de 5,04 kg/ha de equivalente ácido e apenas para a maior densidade de plantas de trigo por vaso (30). Nas densidades menores (5 plantas por vaso), essa mesma dose chegou inclusive a favorecer o desenvolvimento das culturas de soja e milho.

Quando o glifosato é aplicado, parte do produto é diretamente absorvida, ficando nas plantas daninhas, e parte é depositada no solo. A parte do produto que é retida nos tecidos vegetais contribui para reduzir sua disponibilidade no ambiente, e este produto somente irá atingir o solo quando a matéria seca dessas plantas daninhas for decomposta pelos organismos heterotróficos do solo e na maior parte das vezes não mais como glifosato.

Por outro lado, o glifosato é um composto orgânico dipolar e, por isso, apresenta rápida e alta taxa de adsorção aos óxidos e hidróxidos de ferro e alumínio e à matéria orgânica do solo, como evidenciado em diversos estudos, inclusive em solos brasileiros (Prata et al., 2000). Tal fato praticamente elimina o risco de absorção radicular da molécula pelas culturas no mesmo ecossistema nas doses normalmente recomendadas em bula. Devido aos quatro mecanismos de ligação apresentados, que podem inclusive atuar concomitantemente, sendo que o principal deles para solo sob clima tropical é a formação de ligação covalente dativa com os óxidos metálicos do solo (semelhante à adsorção específica dos fosfatos inorgânicos), a sorção do glifosato torna-se um processo irreversível (Prata et al., 2000). Sendo assim, na dinâmica das substâncias dos solos, a sorção do glifosato e de seu principal metabólito, o ácido aminometilfosfônico (AMPA), coloca-os na categoria de resíduo-ligado (Prata, 2002; Prata et al., 2003). O resíduo-ligado é a fração do defensivo que não retorna à solução do solo e dessa forma torna-se totalmente indisponível para absorção pelas plantas.

Em condições de campo, a inativação do glifosato é ainda mais rápida, pois ali surgem fatores que não são controlados, como: i) maior atividade microbiana, o que acarreta aceleração da degradação do glifosato; ii) maiores concentrações de cátions metálicos, principalmente o Ca+2 proveniente da calagem e também das fertilizações, os quais formam complexos com o glifosato; iii) maior instabilidade da umidade do solo nas camadas superficiais, que normalmente concentra as moléculas na superfície externa dos colóides e, assim, acelera o processo de adsorção na matriz coloidal do solo; e vi) maior variação da temperatura do solo (Prata, 2002).

Estudos em solos brasileiros mostraram que, em argissolo vermelho-amarelo de textura média, a meia-vida do glifosato foi de apenas 8 a 9 dias e não houve influência do histórico de uso do produto. O mesmo se observou em latossolo argiloso, no qual a meia vida do produto foi de 12 dias no solo sem aplicação prévia de glifosato de 22 dias no mesmo solo, após 11 anos de aplicação do produto. Ainda que a meia-vida tenha mostrado pequena variação no solo com o histórico de aplicação do produto, a persistência do glifosato nas condições de solos tropicais em geral é muito curta (Araújo et al., 2003).

A degradação do glifosato no solo é muito rápida e realizada por grande variedade de microrganismos que usam o produto como fonte de energia e fósforo, por meio de duas rotas catabólicas (Figura 4), produzindo o ácido aminometil fosfônico (AMPA) como o principal metabólito, e sarcosina como metabólito intermediário na rota alternativa (Dick & Quinn, 1995).

Degradação do glifosato por bactérias do solo, com produção dos metabólitos ácido aminometilfosfônico (AMPA) e sarcosina (Dick & Quinn, 1995).
Figura 4. Degradação do glifosato por bactérias do solo, com produção dos metabólitos ácido aminometilfosfônico (AMPA) e sarcosina (Dick & Quinn, 1995).

Vários trabalhos de pesquisa procuraram analisar a mobilidade da molécula de glifosato no solo. Tucker (1977), visando estudar a absorção do glifosato pelas raízes de mudas de citros, aplicou o produto em três diferentes momentos, dentro de um período de 18 meses, nas doses de 3,3; 6,6 e 13,5 kg/ha de equivalente ácido de glifosato, em vasos com capacidade de 19 litros. O autor cita que não observou qualquer sintoma de fitotoxicidade, caracterizado pelo desenvolvimento de folhas anormais, ou redução no desenvolvimento das mudas.

 
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