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Roundup : Glifosato : Capítulo III


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Capítulo III

Glifosato no Manejo de Plantas Daninhas em Culturas Perenes

O resultado positivo do glifosato também pode ser visualizado em outras culturas perenes. Para observar o efeito de diferentes sistemas de manejo das plantas daninhas na cultura de maçã e seu impacto, Merwin & Stilles (1994), em Ithaca (Nova York, EUA), conduziram um trabalho onde avaliaram, por seis anos, diferentes sistemas de manejo de plantas daninhas em duas variedades. Os autores chegaram à conclusão de que o tratamento onde se adicionou 30 kg/planta/ano de cobertura vegetal sob a copa da cultura, numa faixa de 2,5 m, apresentou as menores produtividades finais, pois chegou a provocar 38% de mortalidade de plantas em função da alta incidência de Phytophthora spp e coleópteros ( Microtus pennsylvanicum), apesar da drenagem da área e do controle de insetos. Os tratamentos nos quais se utilizou o glifosato estiveram entre os mais produtivos.

A opção pelo uso de coberturas nas entrelinhas valendo-se de espécies agressivas, como gramíneas perenes, deve ser analisada com certa cautela, pois, além do possível efeito alelopático que elas podem provocar sobre as culturas, são também bastante agressivas na competição por água e nutrientes. O capim braquiária, por exemplo, é uma espécie de gramínea forrageira exótica no território brasileiro. Sua alta adaptação às condições de solos de baixa fertilidade tem-lhe conferido alta agressividade nas áreas infestadas, o que reduz a diversidade específica de plantas no ambiente, dominando de forma agressiva a população de plantas espontâneas. Dessa forma, é importante que estratégias de manejo baseadas na cobertura do solo com vegetação de capim braquiária sejam cuidadosamente analisadas sob o ponto de vista de impacto na flora, na produtividade e na qualidade do fruto. Por essas razões, é altamente recomendável no manejo do mato em pomar de citros manter faixas com o mato controlado nos dois lados da planta, cuja largura deve exceder em pelo menos 30% o raio da copa, para se evitar competição por água, nutrientes e ainda possíveis efeitos alelopáticos de algumas espécies.

Prática de manejo de mato que vem sendo difundida atualmente na citricultura consiste na utilização de roçadeira sem proteção lateral, que permite que o mato ceifado seja depositado nas linhas de plantio, com o objetivo de proteger o solo com palha na superfície. Nesse caso, deve-se ressaltar que tal prática pode reduzir a disponibilidade de nitrogênio no solo para as plantas cítricas, principalmente quando as ervas infestantes são espécies do gênero Brachiaria, que possuem relação carbono/nitrogênio (C/N) muito larga na biomassa. Portanto, nesse caso é necessária a utilização de doses de nitrogênio complementares em relação às adubações normais nos primeiros anos para compensar o consumo extra de nitrogênio por microrganismos decompositores da matéria orgânica. É importante lembrar ainda que essa prática não exclui a necessidade de manter o mato controlado com herbicidas nas linhas de plantio e tem como grande inconveniente o aumento da concentração de sementes de plantas daninhas sob a copa da cultura. Sem o tratamento adequado, essa concentração levará a uma maior competição e poderá exigir, inclusive, um controle manual, encarecendo sobremaneira os custos com o manejo do mato, além de dificultar o controle de pragas e doenças. Caso o controle dessas plantas daninhas seja realizado com o uso de altas doses de nitrato de amônio, aplicado com altos volumes de água, vale lembrar alguns riscos que essa prática pode trazer. Sabe-se que o excesso de nitrogênio pode causar um desequilíbrio nas plantas, promovendo excesso de crescimento vegetativo, levando a um aumento do auto-sombreamento e trazendo como conseqüência severa diminuição da produtividade, além de maior atratividade ao ataque de pragas e doenças, especialmente afídeos, a Teoria da Trofobiose. Por essa teoria, Francis Chaboussou, em 1969, concluiu que os adubos químicos solúveis (principalmente os nitrogenados) e os agrotóxicos promovem a formação de substâncias orgânicas simples na seiva das plantas, através do estímulo a um processo chamado proteólise, tornando-as mais vulneráveis e atrativas às pragas e doenças. Por outro lado, a resistência a elas é favorecida por uma nutrição equilibrada, que reduz a concentração de compostos simples na seiva das plantas. O sistema enzimático dos vegetais, ao sofrer uma interrupção por causa de desequilíbrios nutricionais ou estresse, conduz ao acúmulo de alguma substância do metabolismo celular que poderá alimentar pragas e doenças especializadas na sua digestão. O ponto-chave da sanidade das lavouras passa pelo adequado suprimento de nutrientes. Chaboussou lembra que as plantas necessitam de um pouco de cada nutriente (mais de 40 minerais diferentes) e não muito de alguns.

Além dos problemas citados, para se aplicar essa dose de nitrato serão necessários grandes volumes de água e maior estrutura de aplicação (pessoas, tratores, tanques de pulverização, oficina etc.), aumentando os custos diretos e indiretos e reduzindo a vida útil de todo maquinário envolvido nas aplicações, por causa da corrosão provocada por adubos nitrogenados.

Assim, podemos dizer que a proposta do uso de nitrato de amônio, como parte de um sistema de manejo de plantas daninhas, pode representar certo risco para a cultura e meio ambiente e deveria demandar mais estudos. Malavolta et al. (1994) comentam que podem aparecer nos pomares sintomas causados pelo excesso de nutrientes e cita como exemplo o nitrogênio, que pode provocar crescimento geral exuberante, folhas verde-escuras e grossas, folhas com maior suculência nos tecidos, maior suscetibilidade a enfermidades, interferência sobre outros elementos, citando possível deficiência de cobre, e reduzir a resistência das plantas ao frio.

O risco dessa alternativa deveria ser bem analisado, visto o ocorrido no golfo do México e no delta do Mississipi, como mostrado na apresentação do Prof. Robert Hoeft, no simpósio da Potafos realizado em Piracicaba em 2003. A absurda adubação nitrogenada no Corn Belt americano gera grande quantidade de nitratos, que são carregados pelas águas de drenagem, atingindo córregos, rios e finalmente o rio Mississipi, para dali cair no golfo do México, afetando uma área de dimensões continentais. Outro fato que vale a pena enfatizar é que o excesso de nutrientes presentes em reservatórios de água tem provocado problemas quase que incontroláveis de plantas daninhas aquáticas, o que tem causado intenso problema de manutenção e perdas da capacidade de geração de energia em muitas hidrelétricas.

Finalmente, a alta competitividade das plantas daninhas e o prejuízo potencial que elas podem causar nas culturas exigem que sejam bem controladas, e é solidamente comprovada na literatura a alta eficácia do glifosato, que, por ser um herbicida sistêmico, atua em plantas daninhas anuais ou perenes, de folhas largas ou estreitas, sendo, portanto, uma das melhores opções para o manejo das plantas daninhas.

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