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Roundup : Glifosato : Capítulo III


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Capítulo III

Glifosato no Manejo de Plantas Daninhas em Culturas Perenes

As plantas daninhas surgiram com a agricultura por meio de um processo evolutivo, acumulando características que permitem sua coexistência nas culturas ou ocupando nichos ecológicos não explorados pela planta cultivada. Tal processo evolutivo permitiu que as plantas daninhas adquirissem características biológicas de grande agressividade, principalmente relacionadas com alta capacidade competitiva por água, luz e nutrientes, além de possíveis efeitos alelopáticos de algumas espécies. A permanência das plantas daninhas nos ambientes agrícolas é garantida pelos seus mecanismos de sobrevivência e disseminação eficientes, destacando-se a alta produção de dissemínulos e a persistência (dormência) do banco de sementes. As culturas econômicas, por outro lado, foram selecionadas pelo homem para expressar maior qualidade e produtividade, perdendo a capacidade de competição em relação às plantas daninhas.

Vários trabalhos de competição entre espécies (matocompetição), desenvolvidos no Brasil com culturas perenes, mostraram que a convivência das plantas daninhas com as culturas comerciais, mesmo por período curto de 3 a 4 meses durante os meses mais quentes e chuvosos do ano, já é suficiente para causar perdas significativas de produtividade. Isso pode ser observado em trabalhos desenvolvidos com a cultura de citros, nos quais Blanco & Oliveira (1978) concluíram que a variedade Pêra, com 6 anos de idade, em área infestada principalmente por capim marmelada (80%), guanxuma (10%) e outras folhas largas, apresentou perdas de produtividade de até 41%, e que as maiores perdas ocorreram quando se deixou de realizar o controle das plantas daninhas nos quadrimestres de agosto a novembro e dezembro a março. Em trabalho conduzido em Rio Real, na Bahia, Carvalho et al. (1993) encontraram perda de produtividade dos citros de até 76% devido à concorrência das plantas daninhas, especialmente Brachiaria decumbens, durante os meses de novembro a janeiro. Ainda em citros, Carvalho et al. (2002a), também avaliando a mato-competição, conduziram trabalhos em Boa Esperança do Sul e Taiaçu, no Estado de São Paulo. Nesses trabalhos, os tratamentos que apresentaram as menores produtividades foram aqueles onde a convivência ocorreu nos períodos de agosto a janeiro, de novembro a janeiro e de novembro a abril, sendo que o período mais crítico foi de novembro a janeiro, com perdas de produtividade que chegaram a 34,3% em Boa Esperança do Sul e 25% em Taiaçu. Com esses resultados, os autores concluíram que o período crítico de prevenção (PCPI) de plantas infestantes em citros nos pomares paulistas inicia-se de outubro a novembro (floração dos citros) e se estende até fevereiro ou março, dependendo da distribuição das chuvas.

Trabalhos, também conduzidos por Carvalho et al. (2001, 2003), em quatro regiões do Estado de São Paulo, tiveram por objetivo estudar o manejo de plantas daninhas com glifosato aplicado na linha da cultura de citros, Plantio direto de feijão de porco (Canavalia ensiformis) na entrelinha da cultura de citros associado ou não ao plantio direto de várias coberturas nas entrelinhas (Figura 2). Essas áreas foram conduzidas por um período de 2 a 5 anos e os resultados médios obtidos mostraram que as melhores produtividades foram obtidas quando se utilizou o plantio de leguminosas (feijão de porco, Canavalia ensiformis) como cobertura (41,4 ton/ha), seguido pelo tratamento com aplicações de glifosato, nas doses de 1.080 g e.a./ha e 540 g e.a./ha, respectivamente, na linha e entrelinha, com produtividade de 41,1 ton/ha.

Figura 2: Plantio direto de feijão de porco (Canavalia ensiformis) na entrelinha da cultura de citros.

Resultados interessantes a respeito do manejo de plantas daninhas na cultura dos citros foram obtidos por Tersi (2001), em um ensaio de longa duração conduzido na região de Itápolis, uma das principais regiões citrícolas do Estado de São Paulo, cujos resultados médios de produção e qualidade dos frutos de sete colheitas foram resumidos no Quadro 1. Fica evidente o efeito prejudicial das plantas daninhas sobre a produção total e tamanho dos frutos cítricos, o que pode ser observado comparando-se a testemunha, onde não foi feito nenhum controle das plantas daninhas durante os sete anos, com os demais tratamentos.

Numa análise geral, observa-se que nos tratamentos em que se utilizou glifosato como parte do sistema obteve-se produtividade 52,4% superior à testemunha no mato e quando comparou-se o sistema glifosato na linha mais roçadeira na entrelinha obteve-se 19,4% a mais de produtividade em relação ao tratamento apenas com roçadeira. Vale ressaltar que o melhor tratamento de controle de plantas daninhas foi o obtido com a aplicação de glifosato na linha de plantio e roçadeira na entrelinha (T1). Nos demais tratamentos que se destacaram, o controle do mato na linha de plantio foi feito com glifosato e o mesmo foi observado no tratamento no qual o glifosato foi aplicado em área total (T6). O autor comenta que o uso do glifosato apresentou a melhor relação custo-benefício no manejo do mato na cultura dos citros. Observou-se efeito pouco acentuado dos tratamentos com manejo de mato sobre as características internas dos frutos, como sólidos solúveis totais e grau de maturação.

Esse trabalho contempla ainda minucioso estudo dos métodos de manejo de plantas daninhas sobre propriedades físicas do solo, como agregação, porosidade, retenção de água e densidade. De modo geral, apenas o uso da enxada rotativa reduziu a estabilidade dos agregados e, portanto, provocou perdas na qualidade do solo. Entre os demais, as propriedades físicas do solo foram bem preservadas, inclusive com a aplicação de glifosato em área total.

Quadro 1. Resultados médios de produção e qualidade dos frutos em sete colheitas de Laranja-Pêra na região de Itápolis - Estado de São Paulo.

Manejo do mato Produção
t/ha
Tamanho
do fruto, g
S. solúveis
kg/cx
Ratio
T1 Glifosato (L) + roçadeira (R) 41,3 171 2,52 15,4
T2 Roçadeira (L) + roçadeira (R) 34,6 166 2,61 15,5
T3 Glifosato (L) + grade (R) 38,9 168 2,48 16,4
T4 Grade (L) + grade (R) 32,4 166 2,40 15,6
T5 Rotativa (L) + grade (R) 33,3 161 2,58 15,4
T6 Glifosato (L) + Glifosato (R) 37,3 167 2,41 15,5
T7 Testemunha sem controle 25,6 158 2,52 16,5
DMS Tukey 5% 11,2 12,3 0,29 2,1
(L) e (R) = controle do mato na linha de plantio e meio da rua respectivamente.
Fonte: Tersi (2001).

Vários estudos sobre mato-competição também foram conduzidos na cultura do café; dentre eles podemos citar o conduzido por Blanco et al. (1982), que observaram que a concorrência com o mato provocou queda na produção entre 55,9 e 77,2% em cafeeiros em formação.

 
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