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Matéria prima: Glifosato


Prefácio

Desde o início da agricultura e da pecuária, as plantas que infestavam espontaneamente as áreas de ocupação humana e que não proporcionavam alimentos, fibras ou forragem eram consideradas indesejáveis e foram rotuladas de plantas daninhas. Essas plantas, em termos de nomenclatura botânica, são consideradas plantas pioneiras, ou seja, plantas evolutivamente desenvolvidas para a ocupação de áreas onde, por algum motivo, a vegetação original foi profundamente alterada, abrindo grandes nichos para o crescimento vegetal. Elas têm a função de criar habitats adequados ao início de uma sucessão de populações, culminando com o restabelecimento da vegetação original.

Com o desenvolvimento da sociedade humana, ocorreu não só a continuidade como a expansão geográfica das áreas de agricultura e pecuária, o que permitiu a evolução das plantas pioneiras e o aparecimento de novas espécies. Assim, as comunidades infestantes foram se tornando cada vez mais densas, diversificadas e especializadas na ocupação dos agroecossistemas, passando a interferir profundamente nas atividades agrícolas. Assim, esse tipo de vegetação passou a ser alvo de controle.

No início, a atividade de controle restringia-se à monda das plantas daninhas que se destacavam em termos de porte. Esse tipo de manejo promoveu uma seleção antropogênica das plantas de pequeno porte ou de hábito mais prostrado. A queima dos restos culturais logo após a colheita representava outra prática agrícola com grande impacto de controle das plantas daninhas e que promovia uma ação de seleção para plantas de ciclo mais curto, com rápida produção de propágulos, afetava a biodiversidade local com intensa mortalidade de insetos e outros animais.

Mais tarde, com o desenvolvimento dos primeiros equipamentos agrícolas, a capina manual passou a predominar nos campos agrícolas, favorecendo a seleção de plantas com propagação vegetativa e com habilidade de rebrota precoce. Esse tipo de seleção foi incrementado com a utilização da tração animal, que permitiu a intensificação da mobilização do solo como uma das formas de eliminação das plantas daninhas. O plantio em linhas foi uma prática que, se por um lado facilitou a utilização do cultivo manual e animal, por outro aumentou a disponibilidade de nichos adequados à instalação e ao desenvolvimento das plantas daninhas.

Na primeira metade do século 20, a mecanização agrícola foi a grande arma para o controle das plantas daninhas, devido à força e à diversidade dos equipamentos de preparo do solo, os quais eram eficientes nas mais diversas situações da agricultura mundial. Inicialmente, a inversão da leiva promovida pela aração realocava as sementes depositadas na superfície do solo para camadas profundas, onde a maioria morria. A dormência e a capacidade de reconhecimento da posição das sementes no perfil do solo passaram a constituir um forte fator de seleção para esse tipo de vegetação espontânea. Assim, após anos de agricultura mecanizada, as plantas daninhas desenvolveram inúmeros e complexos mecanismos de dormência de suas estruturas reprodutivas, resistência aos decompositores e predadores do solo, grande descontinuidade na germinação e capacidade de germinar e emergir de camadas mais profundas do solo. Nessa fase do controle de plantas daninhas, o processo erosivo e a depleção dos teores de matéria orgânica constituíram importantes impactos ambientais, até hoje não reparados.

Na segunda metade do século 20, houve aumento expressivo do controle químico com o desenvolvimento da indústria de herbicidas. Nesse período, grande número de produtos de diferentes classes químicas e modos de ação foram liberados no mercado. Devido à grande diversidade dos modos e mecanismos de ação dos herbicidas, não houve uma pressão de seleção específica de uma ou outra característica da vegetação. Na última década, com a utilização de herbicidas que atuam em sítios muitos específicos do metabolismo vegetal, começaram a aparecer as primeiras populações resistentes, decorrentes da pressão de seleção promovida pelos herbicidas ou um grupo de produtos com o mesmo modo de ação. A confiança que os agricultores depositaram no controle químico foi a principal responsável pela grande expansão dessa modalidade de manejo de plantas daninhas.

A evolução da urbanização, o crescimento da população humana, o avanço tecnológico na produção e conservação de alimentos, dos meios de transporte, do controle de plantas daninhas, pragas, fungos e organismos indesejáveis em residências foram praticamente exponenciais, sendo a conquista mais rápida que a capacidade de entendimento de seus efeitos ambientais, sociais e econômicos no longo prazo.

Com os pesticidas, devido à sua natureza declaradamente tóxica, os cuidados foram maiores que para outros produtos, como tintas, aditivos de alimentos e outros. No entanto, há ainda muito a ser entendido sobre o comportamento desses produtos no ambiente.

Deste modo, consideramos que esta obra, elaborada para esclarecer resultados de pesquisa sobre o comportamento ambiental do glifosato, seja extremamente pertinente, pois essa é uma molécula de importância fundamental na competitividade de nossa agricultura.

Considerando que o glifosato vem sendo utilizado no Brasil desde 1978 em numerosas condições de agricultura, áreas urbanas, manutenção de estradas e ferrovias, envolvendo inúmeras formulações comerciais, produzidas por empresas com diferentes níveis tecnológicos, não há evidências cientificamente comprovadas de impactos importantes no ambiente.

Robinson Antonio Pitelli
Prof. Titular FCAV/ UNESP - Jaboticabal