O glifosato e as Populações Microbianas do Solo
O solo é um sistema bastante complexo, constituído por material mineral, matéria orgânica, microrganismos, água e ar; sendo que a variação de um desses componentes pode provocar alterações nos demais (Alexander, 1961). Populações complexas e diversificadas de microrganismos estão presentes no solo e provocam grandes interferências na qualidade dos mesmos, juntamente com os processos bioquímicos que neles ocorrem (Tiedje et al., 1999). A presença de microrganismos no solo pode ser facilmente influenciada por inúmeros fatores, como propriedades físico-químicas, matéria orgânica, umidade, temperatura, pH, sistemas de manejo e outros (Alexander, 1961; Buckley e Schmidt, 2001). Portanto, variações em populações específicas de microrganismos são esperadas sempre que se introduz alguma prática agrícola que altere significativamente os fatores citados.
No ambiente agrícola, o glifosato não causa impacto significativo sobre as populações microbianas em função da grande diversidade dos microrganismos, da composição físico-química dos solos e da dose efetiva para exercer alguma ação sobre eles. Grossbard & Harris (1979), observaram que concentrações de glifosato capazes de inibir microrganismos em culturas puras estão geralmente muito acima daquelas que poderiam estar disponíveis nos solos após as aplicações de campo. Citam ainda que o glifosato é altamente adsorvido ao solo, o que colabora para sua inativação e indisponibilização. Segundo Roslycky (1982), o glifosato aplicado ao solo não tem efeito adverso nas populações microbianas.
O estudo desenvolvido por Gomez et al. (1989) mostrou que o glifosato não teve efeito prejudicial sobre microrganismos no campo, mesmo em doses de até 14,4 kg e.a./ha em solos arenosos. Entretanto, quando usado na concentração de 1%, em condição de laboratório, o produto afetou significativamente algumas estirpes de bactérias. Grossbard (1985) também observou que em meio de cultura puro muitos microrganismos tiveram seu desenvolvimento inibido pelo glifosato, mas que esse efeito dificilmente é reproduzido no campo, onde há incremento no número de propágulos de fungos com o aumento da dose do glifosato, uma vez que os microrganismos utilizam o próprio produto como substrato. Um dos aspectos mais interessantes observados durante a utilização do glifosato é que ele não reduz a nitrificação no solo, ao contrário de outros herbicidas. Grossbard (1985) enfatizou que não há risco de a fertilidade do solo ser comprometida pelo uso de glifosato.
Gomez e Sagardoy (1985) estudaram o efeito de doses do glifosato de 0 (zero) a 2.880 g e.a./ha sobre o número total de bactérias aeróbicas, microartrópodos e ácaros presentes nos solos durante 96 dias em solo arenoso de uma região semi-árida na província de Buenos Aires, Argentina. Alterações significativas que pudessem prejudicar a microflora e a mesofauna não foram observadas em nenhuma das doses testadas.
Chakravarty e Chatarpaul (1990) avaliaram o efeito do herbicida glifosato no crescimento de mudas novas de Pinus resinosa e no desenvolvimento de micorrizas em simbiose com fungos Paxillus involutus, em ensaios desenvolvidos em casa de vegetação. Efeitos adversos do produto não foram observados, mesmo na dose de 3,23 kg e.a./ha. Os mesmos resultados foram encontrados em avaliação de campo, porém nas parcelas não tratadas houve uma mortalidade de 49% do Pinus resinosa, o que foi atribuído à competição pelas plantas daninhas, pois nas parcelas tratadas com glifosato todas as plantas mostraram excelente desenvolvimento.
O aumento da atividade microbiológica do solo com a aplicação do glifosato tem sido observado em vários trabalhos. Sabe-se que muitos microrganismos utilizam a molécula do glifosato como fonte de fósforo, quando da ausência deste no meio (Liu et al., 1991; Pipke et al., 1987).
Araújo (2002) avaliou a biodegradação do glifosato em dois tipos de solo (podzólico vermelho-amarelo e latossolo vermelho) durante 32 dias e observou o aumento da atividade microbiana após a aplicação da dose de 2,16 mg de e.a./kg de solo. Os fungos e actinomicetos apresentaram aumento de população, enquanto as bactérias permaneceram em número constante durante todo período de incubação.
Estudo em andamento (Pitelli, 2003 - UNESP Jaboticabal) vem demonstrando que a adição de glifosato no solo incrementa a atividade microbiana, o que é medido pela evolução de CO2 do solo. As Figuras 6 e 7 mostram a resposta de microrganismos que utilizam a molécula de glifosato no seu metabolismo e aparentemente são favorecidos pelo aumento da dose do produto, podendo-se inferir que ocorre rápida dissipação do herbicida.
Quinn et al. (1988) e Amrhein et al. (1983) mostraram claramente que ocorre uma relação inversa entre a degradação do produto e o crescimento da população de microrganismos durante a degradação do glifosato (Figura 8). A população de microrganismos pode adaptar-se à aplicação do produto, tornando-se pouco sensível à sua presença, sendo capaz de crescer satisfatoriamente, mesmo em concentrações elevadas.
Os estudos realizados até hoje, inclusive em área que recebeu aplicação de glifosato por dezenove anos, não mostrou qualquer efeito adverso significativo sobre a microbiologia do solo (Hart e Brookes, 1996) e não se observou impacto sobre a biomassa microbiológica, bem como sobre a mineralização de carbono e nitrogênio, nas doses recomendadas (Biederbeck et al., 1997). Trabalhos mais recentes feitos por Haney et al., (2000, 2002) também confirmam a degradação do produto sem impacto negativo sobre a comunidade microbiana do solo. Da mesma forma, Giesy et al. (2000) concluíram em seu relatório de avaliação de risco ecotoxicológico para a molécula de glifosato que, nas doses recomendadas, não há qualquer evidência de que o produto possa causar danos à microbiologia do solo.
Giesy et al. (2000) concluíram que o glifosato utilizado nas doses recomendadas não causa danos sobre a microbiologia do solo.
Jansen (1999) analisou o impacto do uso de herbicidas em plantio direto e concluiu que os herbicidas geralmente representam menor risco para os seres humanos e para a fauna silvestre, quando comparados com os inseticidas, em razão de agirem basicamente sobre processos fisiológicos existentes apenas em plantas. Além disso, a presença de organismos vivos em solo onde o plantio direto é realizado é muito maior do que em solo de plantio convencional. Isso mostra claramente que os microrganismos encontram um ambiente mais favorável nas áreas de plantio direto, ocorrendo em maior quantidade e diversidade, independentemente do tipo de solo. Outra conclusão foi que diferentes herbicidas e doses aplicadas nas áreas de plantio direto têm menor efeito negativo sobre os componentes biológicos do solo que o preparo mecânico para o plantio convencional e os herbicidas utilizados nesse sistema. Finalmente, os microrganismos são agentes importantes na degradação da maioria dos herbicidas. Portanto, segundo Jansen (1999), o risco de aparecimento de resíduos de herbicidas é maior nas áreas de plantio convencional que em áreas de plantio direto, em razão da maior atividade biológica nessas áreas.
O glifosato é um dos ingredientes ativos que viabilizaram o estabelecimento e o crescimento das áreas de plantio direto no mundo e é considerado um sistema sustentável e conservacionista por excelência, trazendo benefícios como proteção do solo contra os processos erosivos e perda de umidade (Giesy et al, 2000). Dentre outros benefícios podemos ainda citar melhoria das características físico-químicas do solo, aumento do nível de matéria orgânica, aumento da biodiversidade, aumento da capacidade de retenção de água, melhor aproveitamento dos nutrientes do solo pela planta etc.
Muitos desses benefícios podem ser comprovados, por exemplo, pela maior ocorrência de minhocas e maior atividade microbiana nas áreas de plantio direto na decomposição da palhada e dos restos de culturas sobre o solo.
" Todos esses fatores são muito importantes no desenvolvimento das culturas implantadas nessas áreas, tornando-as mais resistentes às condições de estresse, aumentando seu potencial de produção e trazendo benefícios diretos e indiretos para o agricultor, o meio ambiente e a sociedade em geral.
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