Newsletter Monsanto em Campo - Julho | 2008 | edição XXII | Ano IV  
 
Para Haroldo Cunha, algodão transgênico aumenta a produtividade e traz benefícios ambientais

Entrevista

“A Biotecnologia é vital para a sobrevivência da cotonicultura”

Novo presidente da Abrapa destaca os desafios da cotonicultura nos próximos dois anos

Após cinco anos, a Organização Mundial do Comércio (OMC) confirmou, no dia 2 de junho, que o Brasil venceu em seu tribunal uma disputa sobre a legalidade dos subsídios norte-americanos para o algodão, e pediu a sua retirada imediata. O novo presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Haroldo Rodrigues da Cunha, acompanhou de perto essa batalha já que ocupou, por dois biênios consecutivos, a presidência da Associação Goiana dos Produtores de Algodão (Agopa). Nos últimos quatro anos, ocupou uma das vice-presidências da Abrapa, onde acaba de assumir o posto de presidente.

Na entrevista a seguir, Cunha, que produz algodão desde 1991 em Turvelândia, município localizado a 240 kms de Goiânia (GO), fala sobre os desafios do mercado de algodão para o próximo biênio e a importância da biotecnologia para o fortalecimento do setor principalmente entre os pequenos produtores:

Quais serão seus principais desafios à frente da Abrapa?

A maior preocupação do próximo biênio está na sustentabilidade econômica do algodão frente às outras culturas. Gostaria de focar minha gestão na rentabilidade e na competitividade em relação às culturas concorrentes. Temos que trabalhar para não termos uma redução de área motivada, principalmente, pela questão cambial que afeta fortemente o algodão. Nosso produto ficou muito barato em relação ao milho e soja. Com isso, o produtor brasileiro, que já tem por hábito diversificar suas lavouras, tende a deixar de lado a cotonicultura. Além desses pontos, o encarecimento dos insumos (principalmente fertilizantes) e combustíveis também são grandes desafios, já que o algodão é o que consome maior quantidade desses dois itens quando comparado a outras culturas.

O mercado brasileiro de algodão passa por um bom momento?

O mercado interno não passa por um momento muito bom, já que está sofrendo um reflexo do internacional, com as fortes oscilações cambiais. O Brasil sempre teve como característica antecipar as vendas, até com três safras de antecedência. Com a queda do dólar, precisamos cumprir contratos apesar da diferença de câmbio em relação ao momento do acordo de comercialização.

Você já foi presidente da Associação Goiana de Algodão. Como é vista pelos integrantes da Abrapa de outras regiões a alternância de líderes da associação?

O Conselho Fiscal e a diretoria da Abrapa têm representantes de todos os estados. Na política da entidade, os cargos são ocupados por pessoas que estão dispostas a contribuir dentro do perfil que cada posto exige. Para participar da nossa associação, não basta competência. A pessoa deve ter disponibilidade de tempo e força de vontade. A alternância de poder entre os presidentes e vice-presidentes da Abrapa das várias regiões produtoras é positiva para o setor, e evita que aconteça algum tipo de desconfiança entre os membros de que determinado integrante possa dar mais atenção à sua região de origem.

Desde que foi criada, em abril de 99, a Abrapa tem como objetivo representar os interesses da cotonicultura nacional junto às autoridades públicas e privadas. As políticas do governo voltadas à área têm surtido efeitos positivos para o mercado?

Temos uma representatividade na Câmara Setorial do Algodão, dentro do Ministério da Agricultura. É o elo mais forte que temos hoje com o Governo. Ali é que colocamos nossas maiores necessidades e a relação, do ponto de vista comercial, está boa. Mas precisamos avançar principalmente em relação à liberação de novas variedades de produtos geneticamente modificados. Temos batalhado muito pela liberação dos transgênicos para aumentar a produtividade das áreas, aliada às vantagens socioambientais.

A biotecnologia é vital para a sobrevivência da cotonicultura. Já enfrentamos um prejuízo por não termos conseguidos essa liberação há mais tempo. Se continuarmos com atraso, vamos perder uma grande oportunidade de reconquistar mercado. O Ministério da Agricultura tem consciência disso.

A reforma tributária também nos preocupa, porque a quantidade de burocracia interna e a quantidade de taxas em muitos procedimentos acabam se transformando em um grande entrave. A dificuldade está na integração dos ministérios para que essas soluções sejam aceleradas.

A Abrapa contribuiu de que maneira para o fortalecimento da imagem do algodão brasileiro no exterior?

Desde que vimos a possibilidade de exportar, a Abrapa investiu no marketing internacional e na presença em países que são nossos clientes. Vamos aos principais centros consumidores para divulgar a qualidade da nossa fibra. E já existe uma boa percepção nesse sentido no exterior. Quando a produção foi retomada em maior escala com foco na exportação, a partir de 2002, a qualidade do nosso produto já era bem melhor em relação ao auge do nosso período de exportação na década de 80. Nosso objetivo é focar mais agressivamente o contato com grandes redes de varejo para que essas empresas comecem a comprar produtos de fornecedores comprometidos com práticas seguras de manejo, colheita e beneficiamento.

Faço parte do conselho consultivo do BCI (Better Cotton Iniciative), um grupo de trabalho criado a partir da sugestão de organizações não-governamentais internacionais, como a WWF, que pretende desenvolver no Brasil, Índia, Paquistão e em alguns países do oeste africano, áreas pilotos com princípios globais sustentáveis de produção. Em cada país, esses grupos de trabalho são formados por membros de toda a cadeia produtiva. No nosso caso, membros da Embrapa, ONGs locais, instituições e o governo. Acreditamos que o Brasil seja o país com as conversas mais adiantadas nesse sentido, e temos a previsão de que, em 2009, sejamos os primeiros a ter essa área piloto o que irá favorecer, ainda mais, a imagem do nosso algodão no exterior.

Quais são os maiores entraves na conquista de uma maior participação no mercado externo de algodão?

Do ponto de vista da qualidade e da credibilidade estamos muito bem, mas a logística ainda é o maior entrave no incremento da nossa participação no mercado internacional. Não temos investimentos em estradas e portos compatíveis às necessidades de entrega relacionadas a um possível aumento de produção. O principal mercado do mundo para nós é a indústria têxtil asiática e estamos muito longe deles. Precisamos modernizar os portos, as estradas, que ligam os locais de produção aos centros consumidores e de distribuição, precisam de melhores condições de tráfego para baratear os custos de frota. Investir na recuperação da malha ferroviária, por exemplo, teria um custo-benefício muito maior para toda a cadeia produtiva e possibilitaria que os prazos de entrega fossem cumpridos mais tranqüilamente, única reivindicação dos nossos clientes internacionais.

Qual o balanço que pode ser feito após a liberação comercial, há três anos, do algodão geneticamente modificado nas lavouras brasileiras?

A biotecnologia dá muito resultado, mas é preciso aumentar a disponibilidade dessas vantagens para outras variedades de algodão. Os grandes produtores ainda não quantificam muito essas vantagens em razão dessas restrições. Por isso é de fundamental importância a liberação desses novos produtos transgênicos pela CTNBio.

Como a Abrapa acompanha o processo de liberação de outras novidades, ligadas à biotecnologia, para o setor de algodão como a liberação pela CTNBio da tecnologia RR, tolerante ao glifosato?

Fazemos um trabalho forte junto à sociedade para desmistificar que o uso de transgênicos poderia trazer prejuízos. Além disso, acompanhamos diretamente o andamento dessas aprovações junto aos ministérios, mostrando às autoridades dados e projeções de produtividade que poderiam fazer a diferença na conquista de novos mercados. Não queremos fazer barulho, mas dialogarmos em cima de fatos.

Qual a avaliação da atuação da Abrapa nos últimos anos no incentivo da adoção de biotecnologia entre os pequenos e médios produtores de algodão?

A Abrapa está também do lado dos pequenos e médios agricultores, que são, sem dúvida, os que mais se beneficiarão com o uso da biotecnologia. Quem produz mais, já tem mais condições técnicas e financeiras de monitorar suas plantações. Já para os demais, esse controle é mais difícil. O que aconteceu na Índia, que de 3° maior importador passou a ser o 2° maior país exportador, só foi possível graças ao ingresso da biotecnologia nas plantações. O controle ao bicudo ainda é o nosso maior pesadelo. Mas os benefícios sociais e ambientais que a redução de pulverizações de pesticidas que o algodão transgênico proporciona já são bastante expressivos.

 
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