
Para Graziano, a tecnologia pode ser uma ferramenta útil no combate à fome se for utilizada no contexto social adequado |
As amplas possibilidades e os claros limites da ciência para resolver os desafios do desenvolvimento têm na figura e na obra de Norman Borlaug o símbolo de uma recorrente ambigüidade.
Vencedor do Nobel da Paz de 1970, o ‘pai da Revolução Verde’ morreu em 12 de setembro de 2009 aos 95 anos de idade, mundialmente reconhecido pelas contribuições ao melhoramento de variedades de sementes de alto rendimento (VAR). Tais avanços, associados à disseminação dos defensivos e adubos químicos, definiram novos padrões de cultivo e manejo que foram responsáveis pelo grande salto de produtividade da agricultura mundial no pós-guerra.
Instituições internacionais logo enxergariam nessa receita uma alavanca para a remoção dos gargalos tecnológicos enfrentados pela agricultura dos países pobres, sem a necessidade de afrontar estruturas responsáveis pela reprodução secular da desigualdade no campo. Entre 1950 e 1981, a produção agrícola norte-americana cresceu quase 100%, a área plantada aumentou apenas 3%, e o uso de mão-de-obra caiu 63%. Os trunfos alcançados pela pesquisa agronômica, portanto, não eram ilusórios.
Embora alguns países em desenvolvimento tenham se beneficiado da Revolução Verde, a dependência química associada aos avanços definiria um filtro de acesso incompatível com as promessas de convergência produtiva entre ricos e pobres. Uma variedade de arroz conhecida como IR-8, um dos carros-chefe da Revolução Verde, por exemplo, multiplicava por cinco o rendimento por área. Seu desempenho, todavia, estava condicionado à irrigação e ao uso maciço de insumos químicos.
Incapazes de incorporar parâmetros de escala e eficiência inscritos nesse processo, milhões de pequenos produtores foram cuspidos da engrenagem no meio do caminho. O resultado foi o avanço da concentração da terra e da riqueza e a consequente ampliação da fome justamente entre aqueles que deveriam contribuir para erradicá-la.
Borlaug nunca escondeu a contrariedade com críticas que cobravam da ciência mais do que ela podia dar. “É justo criticar a Revolução Verde (...) por não ter corrigido todos os males do planeta desde Adão e Eva? (...) Se você deseja a paz, precisa cultivar a justiça, mas ao mesmo tempo deve cultivar os campos para produzir mais pão, caso contrário não haverá paz”, escreveria no texto que serviu de base ao seu discurso de agradecimento pelo Prêmio Nobel.
Mesmo não compartilhada inteiramente por Borlaug, a noção de que bastaria aumentar a oferta para ampliar o acesso aos alimentos disseminou-se a partir do modelo que ajudou a estruturar. Meio século depois, o saldo de 1 bilhão de famintos no planeta sugere que requisitos cruciais foram negligenciados.
A morte de Borlaug fecha o ciclo das ‘balas de prata’ da luta contra a fome. A Revolução Verde não acertou exatamente o alvo, mas enterrou definitivamente a ameaça malthusiana de que seria impossível alimentar tantas bocas, ainda que elas tragam consigo muitas mãos...
Precisamos de uma nova Revolução Verde, e uma lição importante é que não podemos desdenhar a disseminação de tecnologias adaptadas às singularidades sociais dos países pobres. A tecnologia por si só não resolve o problema da fome, mas pode ser uma ferramenta útil se utilizada no contexto social adequado. Ao mesmo tempo a indiferença ambiental que vê no solo um mero substrato à alavancagem das colheitas chegou a um ponto de saturação. A atenção a esses dois elementos está no centro dos esforços da FAO em apoio aos agricultores pobres do mundo.
Borlaug deu uma contribuição importante à luta contra a fome. Agora, cabe a todos nós unir esforços para garantir a segurança alimentar mundial.
*O autor é Representante Regional da Organização das Nações Unidades para Agricultura e Alimentação (FAO) para America Latina e Caribe
|