Maio| 2010 | Edição XXXIII | Ano V
   Entrevista

“A biodiversidade é a base para a sustentabilidade”


Scarano, da CI: setor agrícola tem de fazer parte da busca por soluções para proteção do meio ambiente

A ONG Conservação Internacional (CI) foi fundada com o objetivo de promover o bem-estar humano e fortalecer, na sociedade, o cuidado responsável e sustentável com a natureza. Com 20 anos de atuação, a CI está presente em 43 países, sempre amparada em uma base sólida de ciência, parcerias e experiências de campo. No Brasil, é parceira da Monsanto desde 2008, em um projeto que envolve a conservação de áreas de Cerrado no oeste baiano e Mata Atlântica no Nordeste do Brasil.

Ao Monsanto em Campo, o novo diretor-executivo da CI no Brasil, Fábio Scarano, especializado em Ecologia, professor-associado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-diretor de Pesquisas Científicas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, fala das relações da entidade com governo, meio acadêmico e demais ONGs e discute a importância da biodiversidade e da sustentabilidade.

No que a Conservação Internacional se diferencia das demais ONGs?

Nossa diferença está, em termos, na pesquisa científica, o principal alicerce para o nosso trabalho. Temos um grande número de pessoas vindas do meio acadêmico. Enquanto outras ONGs cumprem papel importante, por exemplo, por meio do ativismo, a CI se destaca por ser uma “research NGO”, utilizando a informação e o conhecimento da ciência como base para as ações. Quando negociamos no ambiente político, empresarial ou mesmo com outras entidades não-governamentais, a base que compõe nossas ideias é científica. É óbvio que nossa paixão é pela causa ambiental, mas sempre guiada pela objetividade da ciência. Como é o caso da parceria com a Monsanto. Várias organizações ambientais têm uma posição, a priori, contrária à transgenia; no nosso caso, se por um lado continuamos apoiando o ‘princípio da precaução’, cientes de que a transgenia ainda é uma novidade científica (20 anos na ciência é muito pouco), por outro, não podemos ignorar o fato de que o plantio de transgênicos foi aprovado pela CTNBio e tudo indica que é uma tecnologia que veio para ficar.

Sabemos que, consideradas as devidas salvaguardas ambientais e sociais, os OGMs têm um papel importante no cenário global da produtividade agrícola. Entendemos que é preciso trabalhar com empresas do ramo, não nos afastarmos ou simplesmente atirarmos pedras, até para podermos monitorar melhor as áreas naturais, as espécies invasoras e as polinizadoras e verificar potenciais impactos. O setor agrícola, incluindo desde a produção orgânica até o agronegócio multinacional e as empresas de biotecnologia, tem de fazer parte da busca por soluções mais eficientes para conter a degradação dos recursos naturais e dos serviços ambientais.

Outro componente é a credibilidade. Como estou há pouco tempo na CI, posso falar quase como observador externo. No meio acadêmico, a nossa entidade é vista como a organização mais próxima e a mais fácil de conversar. Também é importante ressaltar que a CI se diferencia das outras ONGs pela história, muito ligada à conservação da biodiversidade, em espécies ameaçadas e lugares de conservação. Há algum tempo existiam ONGs de biodiversidade e outras socioambientais e, hoje, pode-se dizer que a CI é um meio-termo.

O termo sustentabilidade é utilizado constantemente, mas, muitas vezes de maneira incorreta, pois nem todos sabem o que é ser sustentável. Por meio de diálogo e parcerias, a CI pode ajudar a esclarecer o que é e como ser sustentável?

Há 10 anos se falava muito nisso, parecia que tudo era sustentável, mas sem muito domínio, sem muita propriedade. Hoje isso já mudou um pouco. Existem até diferentes conceitos do que seja sustentabilidade e diversos entendimentos. Por exemplo, muitos setores falam em sustentabilidade sem falar sobre biodiversidade, como se a biodiversidade não fizesse parte desse contexto. Acreditamos que a biodiversidade é a base da sustentabilidade.

Cabe às ONGs melhorar a comunicação e disseminar informações sobre temas como biodiversidade, sustentabilidade, biotecnologia e a relação entre elas?

Com certeza. O que estamos falando deve vir acompanhado de educação. Mesmo no meio acadêmico travamos muitos debates. Muitos assuntos são alvos de preconceitos por não serem entendidos. Algumas pessoas acreditam que trabalhar com sustentabilidade não é lucrativo, mas quem trabalha na área também precisa ganhar dinheiro e é possível fazer as duas coisas: lucrar e se preocupar com o ambiente. Esse ponto é o fiel da balança. Quando um empresário, grande ou pequeno, começa a perceber que, com práticas sustentáveis, ele também pode melhorar seu negócio é que as coisas começam a dar certo. A prática sustentável é um diferencial importante.

A parte da comunicação também é muito importante. Temos de conciliar o marketing, a imagem da empresa, e elaborar estratégias de comunicação para divulgar as ideias nas quais acreditamos. Por mais inusitada que seja, se compartilharmos com outras pessoas é possível que alguém concorde e a divulgue também. Assim, de um em um, temos um efeito multiplicador. Hoje, diferentes setores que se opunham às nossas ideias passaram a ser aliados. A discussão também faz parte do nosso trabalho.

Em dezembro de 2009, você participou da 15ª Conferência das Partes, em Copenhague (COP-15). Acha que as expectativas foram atendidas em relação aos resultados?

Em termos de realização, muito se discutiu sobre o que poderia ser feito. Para a opinião pública, muito pouco foi decidido em Copenhague, mas há certo grau de erro nesta leitura, porque se criou uma grande expectativa em torno da convenção. Como o resultado ficou aquém das expectativas, o primeiro julgamento foi de fracasso. As pessoas do meio já sabiam que não seria feito um acordo para controle de emissões de gases causadores do efeito estufa, mas a opinião pública esperava um grande acordo, que realmente não aconteceu. De qualquer forma, o resultado foi positivo. Em primeiro lugar, esse tema nunca teve tanta exposição, nessa escala, como com a conferência. Políticos de diversos países se reuniram para falar sobre o tema. Além disso, Brasil teve papel de destaque na conferência, de liderança do chamado “grupo dos países pobres”.

Neste tipo de conferência existe a negociação oficial, conduzida pelos profissionais indicados pelos governos. Assim, há uma parte da negociação aberta e outra, mais decisiva, travada em grupos menores e mais fechada. Em paralelo, a conferência é também uma feira de negócios, por onde circulam empresas, ONGs, acadêmicos, governos estaduais e municipais; é dessa grande rede que saem excelentes parcerias, binacionais ou de empresas e ONGs. Só a existência desse espaço, onde as pessoas se encontram, já é um enorme saldo. O Brasil abriu boas frentes de acordos de negócios e teve uma exposição muito boa.

Qual é a diferença entre uma conferência deste porte e o trabalho individual de organizações não-governamentais?

A diferença é o que de fato transforma: as decisões de Estado. Uma empresa pode ter uma prática fabulosa, mas se não virar lei, não se multiplica. Como diretor de uma instituição como a CI, sinto que temos nas mãos as condições de realizar talvez muito mais do ponto de vista prático do que uma conferência como esta pode gerar no curto prazo.

Por muito tempo a situação aqui no Brasil estava morna, mas várias empresas se manifestaram e mostraram ao Governo que desenvolvem ações de sustentabilidade. Esse tipo de ação é sem precedentes. E por que as empresas dizem para o governo que querem metas? Porque têm a ciência por trás. Uma ONG tem um trabalho de formiguinha, para fazer com que diferentes setores conversem e proponham soluções. Com isso, temos a conscientização das pessoas. O Brasil está produzindo conhecimento como nunca antes. Nos últimos 15 anos, tivemos uma verdadeira revolução de geração de ciência aqui, chegando ao setor empresarial, indo além do acadêmico. Essa base científica é responsável pelas transformações. Portanto, o fato de hoje a CI e a Monsanto trabalharem juntas não é mera coincidência, porque a Monsanto tem uma base científica, e a CI é uma ONG de base científica: nosso alicerce é o mesmo.

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